OPINIÃO:Petróleo, futuro e inovação

02-01-2011 17:04

Allan Kardec Duailibe

Hoje o Brasil entende plenamente que a tecnologia é um desestabilizador da História, capaz de transformar realidades. Nós somos, na verdade, uma espécie de laboratório de uma mudança radical em tecnologia na área de energia, onde o Brasil se posta como protagonista privilegiado. O país, que já estava na vanguarda tecnológica da produção e exploração de petróleo e gás natural em águas profundas e ultra-profundas, agora, com o advento do pré-sal, está realizando uma verdadeira revolução.

No fundo do mar, a mais de 2 mil metros de profundidade, a 300 km das costa marítima, serão criadas verdadeiras cidades submersas, habitadas não pelo homem, mas por equipamentos, máquinas gigantescas e robôs de última geração, responsáveis por gerenciar e vistoriar esses sistemas para extração de milhares de barris de petróleo do pré-sal. O objetivo é não precisar de plataformas, colocando no fundo do mar as plantas de processo, sistemas de compressão, de separação (de óleo, gás, água e areia) e até mesmo módulos de geração de energia, fundamental para tudo isso funcionar.

Esse cenário mostra que o Brasil, a partir da inovação e sua capacidade de se reinventar, está alterando consideravelmente as condições atuais da indústria mundial do petróleo, produzindo conhecimento e criando novas e vantajosas possibilidades. E na área de energia podemos dizer, sem modéstia, que somos campeões em inovação, seja em matéria de formulação de políticas setoriais, seja na área da produção de energia.

Isso tudo aconteceu por conta de planejamento, investimento em recursos humanos e inovação. De um lado, houve o desenvolvimento global na área de sísmica, que consiste em "mapear" a estrutura geológica. De outro, foram desenvolvidas bombas centrífugas para águas profundas, métodos para depósitos de parafina e hidratos em linhas de escoamento e equipamentos submarinos, tecnologia para amarração e ancoragem, entre vários outros avanços. Há, no entanto, desafios tecnológicos na definição dos reservatórios, engenharia de poços, garantia de escoamento, logística de gás associado, unidades de produção flutuantes, engenharia submarina. Com isso, igualmente, haverá provavelmente avanços em nanotecnologia, engenharia de controle ou mesmo em neurociência para as plataformas desabitadas.

Caso as atuais estimativas de reservas do pré-sal sejam confirmadas, o Brasil poderá passar da 16ª para a 5ª posição no ranking mundial de reservas provadas de petróleo. As estimadas são ordem de 50 bilhões de barris de óleo equivalente (petróleo e gás natural). Em tal contexto, aliado ao baixo risco exploratório da região, a discussão de um novo marco regulatório para as áreas do pré-sal tem por objetivo assegurar o caráter estratégico das decisões e garantir um maior controle do Estado sobre as riquezas minerais do subsolo.

Atenta a isso, a ANP implantou já 2003 uma política de conteúdo local no setor de petróleo e gás natural. O objetivo era maximizar a participação da indústria nacional no fornecimento de bens e serviços, em bases competitivas e sustentáveis, a fim de traduzir os investimentos do setor em geração de emprego e renda para o país. Neste cenário surgiu o Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural - PROMIMP, visando o desenvolvimento de uma indústria de bens e serviços com competitividade de classe mundial. Ainda em 2009, o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, anunciou também a estratégia do conteúdo local para a área de refino.

Desde a criação do Programa, a participação da indústria nacional nos investimentos do setor aumentou de 57% em 2003 para 75% em 2009, o que representou um valor adicional de 14,2 bilhões de dólares de bens e serviços contratados no mercado nacional, além da geração de 640 mil postos de trabalho neste período. O PROMIMP tem sido sucessivamente ampliado, pois os investimentos da Petrobras em exploração e produção saltaram de US$ 35 bilhões de 2003-2007 para US$ 190 bilhões de 2009-2013. Por sua vez, o Programa de Recursos Humanos da ANP já concedeu, desde 1999, 5.261 bolsas de estudo para alunos de segundo-grau técnico, graduação, mestrado e doutorado, num montante de R$ 190 milhões. São 46 programas de graduação e pós-graduação, em 28 instituições de 16 estados.

Outra fonte de recursos para a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico (P&D) no setor é a Participação Especial, modalidade de participação governamental paga pelos concessionários de campos de petróleo de alta rentabilidade. O investimento é de 1% da receita bruta da produção do campo. Este valor tem de ser gasto, obrigatoriamente, em despesas qualificadas como pesquisa e desenvolvimento. A obrigação de investimentos em P&D, desde 1998 até o primeiro trimestre de 2010 já ultrapassaram R$ 4,5 bilhões (valor total acumulado). No entanto, com o Pré-sal - e forte atuação da ANP - só o campo de Franco deve reverter à pesquisa do país nos anos vindouros esse mesmo valor de R$ 4,5 bilhões.

A transformação de sonhos em riquezas concretas está ocorrendo porque há uma agenda clara em que se integram as políticas econômica, energética, cientifica e tecnológica, estabilidade regulatória, além de um norte político claro. Nesse contexto está o fortalecimento da ANP como agência reguladora, investimentos vigorosos não apenas em tecnologia, mas em gente, aliados a um forte crescimento do país, o que assegura amplas condições para que o Brasil se torne a potência energética mundial do hoje e do amanhã.

Diretor da ANP

 (O ESTADO DO MARANHÃO;ED: 17673; PRIMERO CADERNO; OPINIÃO; ARTIGO)

Contacto

Clipping

Av. Prof. Carlos Cunha, S/N, Edifício Nagib Haickel - Calhau.

(98) 3235-8621