Risco de bioinvasão
Imagine um navio com 400 mil toneladas de capacidade. Agora imagine que esse mesmo navio viaje pelo mundo inteiro transportando cargas. Pense que uma embarcação com mais de 300 metros de comprimento precisa estar com os tanques cheios para ter estabilidade durante as viagens, e pense que a cada descarregamento em algum porto do mundo os porões ficam vazios.
Para manter a embarcação estável o espaço deixado pela carga útil é preenchido com a chamada água de lastro. O uso desse líquido faz parte dos procedimentos operacionais usuais do transporte aquaviário. O problema é que junto com a água embarcam organismos típicos da fauna marinha de um determinado local, e esses animais, bactérias e até plantas sobrevivem na água de lastro e nos sedimentos transportados pelos navios, mesmo após viagens longas.
Antônio Carlos Leal, professor do curso de Oceanografia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e doutor em Engenharia Ambiental, explica os riscos que a água de lastro representa para o equilíbrio marinho. “A água de lastro traz espécies exóticas de diferentes partes do mundo. Esses organismos podem conter enfermidades às quais a nossa fauna não está imune, e isso causa um desequilíbrio ambiental”, explicou.
O professor destacou, ainda, as características do litoral maranhense, que facilitam a propagação dos micro-organismos presentes na água de lastro. Segundo ele, a dinâmica das nossas marés, naturalmente fortes e chamadas de hiper marés por estarem acima de 6 metros de altura, podendo atingir até 8 metros, permite que as espécies exóticas se espalhem mais rapidamente, podendo atingir a costa.
Super graneleiros, como o Vale Beijing, ancorado em São Luís há 21 dias à espera de conserto nas rachaduras em seu casco, são os tipos de embarcação que transportam os maiores volumes de água de lastro. Um navio com capacidade de 200 mil toneladas, por exemplo, chegar a transportar até 60 mil toneladas desse líquido. O graneleiro sul-coreano tem o dobro dessa capacidade.
Só em 2010, por exemplo, o Porto do Itaqui, segundo do país e um dos grandes esteios do crescimento econômico do Maranhão, movimentou 12,6 milhões de toneladas de carga. A Empresa Maranhense de Administração Portuária (Emap) quer que esse número passe para 79,7 milhões de toneladas em 2020, de modo que o Itaqui assuma a liderança nacional em granéis sólidos e líquidos.
Com o aumento da movimentação no porto, aumentará também a quantidade de água de lastro que será jogada no litoral do estado, aumentando os riscos de bioinvasão e danos ambientais. A legislação federal dispõe sobre o lançamento de água de lastro enquanto substância nociva em águas brasileiras. A Lei 9.966/00 determina a proibição da descarga de água de lastro, resíduos de lavagem de tanques e outras misturas que contenham tais substâncias em águas rasas, mas, de acordo com o professor Antônio Carlos Leal, a lei nem sempre é cumprida. “Se a água de lastro for despejada em águas profundas, como manda a legislação, não significa que não há riscos ao ecossistema marinho, mas eles são bem menores, pois dificulta a chegada das espécies exóticas à zona costeira”, destaca.
Preservação
Os riscos que a água de lastro oferece aos ecossistemas marinhos são tão expressivos que já existem organizações não-governamentais preocupadas com a causa no Brasil e no mundo. Uma delas é a Associação Água de Lastro Brasil, criada por um por grupo de pesquisadores e professores do Departamento de Engenharia Naval e Oceânica da Universidade de São Paulo.
Na perspectiva de minimizar as conseqüências da bioinvasão por meio da água de lastro no Brasil, a entidade trabalha ações de conscientização e implementação de procedimentos operacionais junto às empresas administradoras de navios na tentativa de garantir a preservação das espécies marinhas brasileiras. (Fonte: O Imparcial)