Vale Beijing ainda representa riscos para o litoral maranhense

15-01-2012 10:45

O navio sul-coreano Vale Beijing está atracado em São Luís desde o dia 2 de dezembro do ano passado e durante esse período diversas vezes foi ressaltada a inexistência de danos ambientais. Contudo, a Capitania dos Portos do Maranhão, Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Ibama, Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa e até o Crea-MA solicitaram informações e visitas para monitorar o estado do navio. A reportagem do jornal O Imparcial conversou com o Químico Ambiental e professor da Universidade Estadual do Maranhão (Uema), Alessandro Costa Silva, para esclarecer os riscos que a embarcação representa para a costa maranhense.

O primeiro fator destacado para a necessidade de extrema atenção com o navio da STX Pan Ocean foi o porte da embarcação. Alessandro Silva esclareceu que os riscos para o meio ambiente são diretamente proporcionais ao porte do navio, quanto maior o volume maior serão os riscos. Ele afirmou ainda que eventuais problemas com o Vale Beijing são agravados pela falta de experiência com este tipo de embarcação. “Foi uma situação de risco ter trazido esse enorme navio para as águas de São Luís. Ninguém os conhece ainda, não estamos falando só pelo seu tamanho, mas por nossas condições aquáticas”, destacou.
O professor da Uema explica que a costa maranhense possui muitas peculiaridades como elevada amplitude de marés, fortes correntezas, presença de bancos de areia, elevada turbidez, entre outras condições. “Todos esses elementos tornam o ambiente bastante adverso, favorecendo a fadiga de um navio que está sendo testado pela primeira vez aqui”, disse. Estas características únicas tornam ainda mais imprevisível o trabalho de resgate da embarcação.

As particularidades da navegabilidade na capital maranhense somadas com a falta de experiência pela novidade deste tipo de embarcação, ainda enfrentam mais um ponto crítico: a ausência de profissionais qualificados. O pesquisador lembra que no Sudeste existem profissionais mais qualificados e com experiência em atividades costeiras com possibilidade de dano ambiental. Mas, não adiantaria contratá-los de uma hora para outra porque eles desconhecem totalmente a realidade da costa maranhense.

Ele aponta como solução para um melhor preparo e controle da entrada de embarcações e contenção de possíveis problemas o investimento do estado, ou da empresa que administra o porto, na criação de cursos como engenheira naval/portuária, geólogos e demais especialistas para atuarem no Maranhão. “Temos que lembrar que a ocorrência de problemas é uma questão estatística. Se você tiver um staff qualificado consegue sanar 90% dos casos, mas existem outros 10%, que são externalidades. O Maranhão está despreparado para contenção desse tipo de problema”, destacou.

Riscos com o combustível e com o minério
Caso ocorresse um eventual vazamento do combustível existente na embarcação, os perigos para a costa ludovicense seriam bem mais agressivos do que em outra localidade, como por exemplo na costa americana ou européia. Alessandro Silva explica que isso ocorre porque São Luís está na faixa equatorial caracterizada por temperaturas mais altas das águas do mar. Sendo, justamente, a temperatura um fator limitante no caso de derramamento de óleo.
O professor conta que as águas da baía de São Marcos e da Baía de São José possuem uma temperatura mais alta até mesmo se comparadas com as da Baía de Guanabara. Esse elemento favorece a propagação do combustível contaminando rapidamente o ambiente aquático da costa maranhense. “O óleo, por ser apolar, tem dificuldade para se misturar com a água, que é polar. Entretanto, isso tende a ocorrer com o aumento da temperatura, comuns em águas equatoriais”, detalhou.

Até mesmo o minério de ferro, que é quase inócuo quando comparado com o minério de carvão, representa um grave risco ao meio ambiente na quantidade que está sendo transportada no navio. “Estamos falando de 260 mil toneladas. Se a carga for parar gradativamente no fundo do mar [devido à densidade] provocará o depósito deste material no ambiente sedimentar causando danos a fauna bêntica. Se flutuar causará danos na água via mudança nas características físicas da coluna da água, podendo se dispersar da área em torno do navio”, argumentou.

O químico alerta que num caso de naufrágio da embarcação, caso o material escoasse rapidamente, poderia causar mortandade da fauna e flora aquática por meio de soterramento. “Há ainda os problemas decorrentes de mudanças nas características químicas da água e do sedimento, devido a presença mesmo em níveis de traços (ppm) de outros metais, como o zinco, cádmio, crômio, níquel e cobre; que obrigaria a suspensão da pesca em algumas localidades por um determinado tempo”, disse.

Sema mantém acompanhamento ao Vale Beijing
O secretário estadual de Meio Ambiente, Victor Mendes, informou que a pasta continua acompanhando as operações realizadas no Vale Beijing com apoio da Capitania dos Portos e do Ibama. “Estamos agindo de forma preventiva acompanhando os procedimentos e otimistas que não ocorrerá o pior”, destacou. Ele esclareceu que a demora para realizar os procedimentos de salvamento ocorre porque as embarcações solicitadas são deslocadas de outros países.

Victor Mendes lembrou que uma equipe do Ibama do Rio de Janeiro com especialidade em emergência ambiental acompanha as ações em São Luís. “Além disso, a estratégia de contenção em caso de uma catástrofe está preparada para contenção dos danos ambientais”, disse. Sobre a qualificação de profissionais locais para tratar do problema, o secretário definiu o incidente com o Vale Beijing como um aprendizado.

O titular da Sema explicou que a pasta passa por uma reestruturação e que foram criadas novas superintendências assim como a ampliação do quadro de funcionários. Ele destaca o surgimento dos setores especializados em risco ambiental e emergência ambiental. As duas áreas foram criadas com base nos setores existentes no Ibama do Rio de Janeiro. “Durante muito tempo a Sema não recebia investimentos, ainda não estamos na condição ideal, mas a governadora tem enviado recursos. É um processo gradual e está evoluindo bem”, destacou.

OUTROS CASOS
Outras embarcações já apresentaram problemas ao se preparem para zarpar do Terminal Marítimo do Porto da Madeira. No dia 11 de novembro de 1994, o navio Trade Daring estava atracado no Píer I e simplesmente se partiu ao meio. O acidente impediu o funcionamento do porto durante duas semanas e foram necessários 35 dias para remover a embarcação do local e normalizar o porto. O problema fez a Diretoria de Portos e Costa (DPC) da Marinha baixar um regulamento sobre a entrada de embarcações com 18 anos ou mais e tornar mais rígida a cobrança do plano de cargas sobre os efeitos a serem provocados na estrutura do navio.

MEMÓRIA
Tanque de lastro
O problema no tanque de lastro do Vale Beijing foi detectado no dia 4 de dezembro enquanto estava atracado no Terminal da Ponta da Madeira após o carregamento do minério de ferro. A fissura no tanque da embarcação impedindo a viagem do Vale Beijing foi anunciada por diversos veículos de comunicação locais e nacionais. O caso foi exposto com clareza no dia seguinte após coletiva de imprensa concedida pela Capitania dos Portos do Maranhão que destacou o controle sobre a situação. No dia 6 foi realizada a remoção do navio para 11 km da costa de São Luís e posteriormente para cerca de 60 km no setor 3 da Baía de São Marcos. (Fonte: O Imparcial)

 

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